
Não sendo uma consumista militante, ao pensar em familiares e amigos a quem deverei retribuir as oferendas de Natal, especialmente nos mais jovens, perdi-me por momentos a olhar as prateleiras de brinquedos num grande espaço comercial.
Dei comigo a cruzar o passado com o presente assim que verifiquei o predomínio de bonecada robótica a figurar “monstros góticos”, parece que assim são designados, bem como toda a maquinaria infernal que acompanha estas imitações "pós-modernas" dos bestiários medievais. Evocando um passado algo distante, vieram-me à memória diversos brinquedos marcantes: um quadro da escola acompanhado de giz, apagador e um pequeno banco de madeira; um cavalo de baloiço, uma cadeira em verga (também de baloiço) onde passava parte dos tempos livres a ler as aventuras de Enid Blyton,a Colecção Azul, o Daniel Boone ... bonecos de corda a tocarem instrumentos musicais, um pequeno piano que, mais tarde, me trouxe o entusiasmo de vir a aprender música, tudo o que, nas mentes infantis de então, parecia digno de ser guardado durante toda uma vida.
Fazendo um recuo ainda menor no tempo, lembrei as sábias palavras da educadora Beatriz, a quem um dia perguntei: “parece-lhe preocupante que a miudagem lá de casa chore até ao soluço quando o elefante Dumbo é separado da mãe ao ser mandado para o circo ou quando o Pinóquio é desviado por malfeitores para a ilha dos meninos burros?” – respondeu ela: “o importante é as crianças, ao visionarem filmes, sentirem a presença de adultos de referência a assistirem juntos às mesmas imagens”.
Há cerca de um ano, uma outra educadora de infância confidenciava-me, com apreensão, que tinha de elaborar algumas listas de actividades familiares, ou seja: “o pai deverá fazer desenhos com a criança ao sábado ao fim da manhã, à mãe será conveniente ler uma história todas as noites ao deitar, ao domingo à tarde aconselha-se a elaboração conjunta de um puzzle”. A medida devia-se ao facto de algumas crianças não saberem estar numa sala por passarem o tempo de permanência em casa sentadas em frente à televisão ou concentrados em pequenos jogos informáticos do tipo Game Boy, não estando habituadas a conversar com as diferentes gerações, mesmo quando alguma avó ou parente mais próximo se encontrava em permanência em casa.
Não subscrevendo ideias como “no meu tempo é que era bom”, “sabíamos brincar, saltar ao eixo e jogar berlinde”, “os filmes infantis eram lindos e criativos”, etc., pergunto-me se não estaremos a construir cada vez mais muros numa era que se diz ser a da comunicação por excelência.
Não sei se a miudagem irá aplaudir, mas fiquei-me por um xilofone, boa literatura adequada ao respectivo nível etário, bem como por alguns jogos didácticos.
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