
Faleceu no passado domingo, dia 7 de Dezembro, o escritor António Alçada Baptista.
Segue um pedaço da sua prosa aqui relembrada como singela homenagem ao escritor:
- O meu ervanário é um crente: tem a verdade da saúde e por isso olha para a humanidade a partir da nossa doença. Eu, quando entro na sua loja, não sou um consumidor de tisanas: sou um doente. Mais: sou um doente desenganado da medicina oficial. Por isso ele diz-me, com um ar muito doce: - Então, senhor doutor, vai melhorzinho? - Eu sei que, se lhe dissesse que não estou doente, não lhe ia corrigir um erro mas uma concepção do mundo e, por isso, desacredito logo da minha força e conformo-me: - Cá vou indo, Sr. José, não tenho passado mal - Mas depois faço-lhe a vontade: - Há uns dias que ando meio engripado... Ora o Sr. José tem os chás numerados por especialidades - o 13 é para os rins, o 14 é para o fígado - e quando eu lhe disse que estava engripado os olhos arregalaram-se-lhe de contentamento e disse-me: - Ó Sr. Doutor, leve o 17... experimente o 17. E o Sr. José, com a voz melíflua de um padre a contar os milagres de uma santa, evocou-me os poderes do 17 [...]
António Alçada Baptista, Os Nós e os Laços
6 comentários:
A ler obrigatoriamente:
http://ajaneladoocaso.blogspot.com/2008/12/antnio-alada-com-as-grandes.html
Bela e sentida homenagem a Alçada Baptista. Gosto tanto deste Baptista como desgosto do outro.
Compreendo, T.
Gostei do texto postado na janeladoocaso.
Eu gosto muito deste Baptista (o António Alçada), quanto ao outro há pedaços de prosa que me divertem, bem como alguns artigos de opinião que me impressionaram no bom sentido. A questão recente foi como que um balde de água fria, é o problema de vivermos na mesma época, estas coisas incomodam e surgem como incoerências notórias :(
Um homem amável, culto. Para lá dos livros, o empenhamento cívico: estoirou a herança na construção da Moraes Editores que publicou, num tempo em que muito poucos o fizeram, autores ditos "perigosos", na criação de "O Tempo e o Modo" um grito muito importante na luta contra a ditadura, vindo de lados que ninguém esperava que viesse.
"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz."
Palavras do começo de "O Tecido do Outono" de António Alçada Baptista, que estava programado para ser um dos "Começos de Livros". Sê-lo-á logo que o algodão doce do Natal se desfizer.
Aguardemos pois:)
da boa prosa...limpa afectuosa e culta.
Obrigada.
É pena ver partir gente com alma.
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