19 de outubro de 2013

A sensibilidade na estrada

Anahi, Jacinta e Rubén - a emoção está nos olhares. 

Raramente um filme disse tanto com tão poucos diálogos. O silêncio é um dos elementos mais importantes em Las Acacias, esse belo e sensível filme de estreia do diretor argentino Pablo Giorgelli.  A cena inicial dura dez minutos e nos apresenta o caminhoneiro Rubén, interpretado pelo excelente Germán de Silva,  sem que se ouça uma palavra sequer.

Da mesma forma, conhece-se Jacinta (Hebe Duarte) e sua filha Anahi (Nayra Mamani) com a mesma surpresa que Rubén. Os três iniciam uma viagem do Paraguai até Buenos Aires, mais de 1500 quilômetros, como desconhecidos circunstanciais. 90% do filme se passam na cabine do caminhão. Nem por isso, pode-se falar em monotonia, ou enfado.

A edição é perfeita e os cortes sem rebuscamento dão ritmo ao filme, na medida certa. Pablo aposta na qualidade técnica da interpretação dos três atores para extrair a essência do que prende o espectador. Como nos filme iranianos em que se espera que algo aconteça na próxima cena, aqui também se espera soluções fáceis que expliquem o contexto da história.

Mas o roteiro foge de soluções fáceis. Perguntas como, por que a filha de Jacinta não tem pai? Por que Ruben não vê o filho a tanto tempo? Por que Jacinta chora antes de dormir? Ficam no ar e na mente de quem assiste. Ao invés disso, o diretor escolhe a sensibilidade dos olhares, a sisudez introspectiva do caminhoneiro e os gestos maravilhosos da criança para compor as personalidades de três figuras humanas fantásticas.

Rubén e Anahi - cumplicidade gestual
Para completar, o filme não tem trilha sonora. Tudo o que se ouve, além das poucas palavras do reduzido diálogo entre Jacinta e Rubén são os barulhos incidentais da estrada, do motor do caminhão, dos postos de combustível onde eles param e nada mais. O resto é silêncio e magia.

Uma viagem entre o Paraguai e a Argentina descrita de forma magistral, digna da "Camera de Ouro"que recebeu em Cannes, como diretor revelação. Mas um exemplo da qualidade e da consistência do bom cinema argentino dos últimos anos. Uma prova irrefutável de que em matéria de cinema os hermanos vão muito além do bom Ricardo Darin.  Se estiver em cartaz na sua cidade, não perca.

18 de outubro de 2013

VI .ª edição do Prémio da Academia das Ciências


O  prémio , na sua sexta edição, destina-se a alunos que, no presente ano, tenham ingressado no ensino superior e tenham concluído, com mérito, o ensino secundário. Para concorrer, será necessário enviar um ensaio na área do Português – prémio Padre António Vieira; da História – prémio Alexandre Herculano ou da Matemática – prémio Pedro Nunes. Devem consultar os requisitos na Academia das Ciências de Lisboa ou através da página desta instituição. Para além de valorizar o mérito , a distinção constitui ainda um auxiliar para o prosseguimento de estudos.

16 de outubro de 2013

14 de outubro de 2013

Ventania

Athos Bulcão e Oscar Niemeyer
Lá por volta de 1961/62, o Brasil experimentou um curto período de parlamentarismo. Nessa época, Oscar Niemeyer, o arquiteto que deu origem física ao sonho de Juscelino Kubitschek, foi chamado às pressas para construir mais um bloco de salas, colado ao prédio principal do Congresso Nacional, área que hoje abriga a presidência da casa.

A obra era necessária para acolher as representações dos partidos políticos. O limite do prédio original terminava na parede oposta ao Salão Verde, área de circulação comum, em frente à entrada do plenário da Câmara dos Deputados. Projeto feito, a parede derrubada deu lugar a um fosso de luz e um jardim.

Athos Bulcão
Para cobrir a parede do novo bloco foi convocado, também às pressas, o artista plástico Athos Bulcão, carioca que adotou Brasília e era considerado um “compositor de espaços”. Por onde se anda, em Brasília, há a presença do forte traço dele, seja nos cubos do teatro Nacional ou nos azulejos dos imensos painéis com desenhos peculiares.

Athos fez o projeto do novo painel. Os azulejos foram produzidos e entregues para a colocação. O engenheiro responsável pela obra cobrou um diagrama de montagem. Não havia. A solução foi voltar a falar com ao artista, mas Athos estava na Europa. E o prazo de entrega da obra, perto do fim. Num tempo em que não havia internet ou a facilidade dos telefones celulares, as comunicações se davam de forma mais complexa e demorada. Foram necessários três dias até localizá-lo.

Painel com as pombas de Athos Bulcão
Cobrado, ele responde: Não há diagrama. Perplexo, do outro lado da linha, a milhas e milhas de distância, o engenheiro perguntou como fazer para montar a peça. Athos não teve dúvidas: Pergunte aos seus operários quais entre eles não sabem ler e entregue a estes a tarefa de montar o painel. Além disso deu uma única orientação: Monte de tal forma que nenhum azulejo repita o modelo anterior.

Ventania, painel no Salão verde da Câmara dos Deputados. 
Detalhe do painel Ventania. 
O resultado é uma obra que se chama “Ventania”, que dá vida e luz ao Salão Verde do Congresso Nacional Brasileiro. Feita por um artista excepcional e montado por operários iletrados, mas cheios de sensibilidade.

«Primária» ou um merecido prémio


Escola de 1.º ciclo, não muito longe de Lisboa. De seu nome, o de um arquiteto que deixou património (não um pardieiro impessoal, com nome de EB1). Um grupo de crianças do 4.º ano, antiga 4.ª classe, a poucos dias do final do ano. Aproximam-se os exames, até lá, a preparação rigorosa, as contas com números decimais, alguns sonhos vividos durante o recreio, nos baloiços, em jogos de ritmo e palmas, em acrobacias. «O meu defeito é ser resmungona»; «gostaria de ser ensaiador da marcha de Alcântara» - respostas lidas perante professor e colegas. Os dias passam, chega a classificação final (com a possibilidade de melhoria na 2.ª fase das provas nacionais para quem não passou). Sabem-se os resultados, quase todos concluem um ciclo de ensino. À vez, o professor anuncia a classificação final. Batem palmas, após sucessos divulgados. Um pequenito não conseguiu acompanhar os restantes, dizem-lhe os colegas «também merece palmas», um outro, de palavra eloquente, fica para aulas de reforço, a fim de repetir os exames de Português e de Matemática: uma lágrima teimosa, a correr, a força (que muitos adultos não conseguem), presente nas palavras súbitas «professor, mesmo assim, foi um prazer ter trabalhado consigo». Na sala de cinema, o público solta, em coro, uma exclamação de surpresa. Termina o documentário com uma dança na festa de final de ano, coreografia a anteceder o esperado (e merecido, atendendo ao que de espontâneo se desenrola aos nossos olhos e ouvidos) afastamento de contas, escrita, leitura: música de ritmos e percussão, malas coloridas que , em movimentos sincronizados, compõem o momento festivo. «Primária», filme de Hugo Pedro, estudante do curso de cinema, foi – esclarece o realizador – filmado sem preparação prévia, a captar instantâneos. Haverá, na curta, alguma mensagem implícita no que diz respeito aos exames? O autor explica que não, a ideia surgiu por se lembrar, com agrado, dos tempos de menino. O filme? Prémio do público e do júri, nesta 4.ª edição do "Córtex", festival de curtas-metragens que ontem terminou em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval.

Imagem: blogue da Escola Básica n.º 1 Raul Lino, “plantar aos sábados de manhã na escola”

13 de outubro de 2013

The Lady´s Realm

Gosto de imaginar a senhora que leria esta revista há 101 anos. Atenta, cuidada, culta. Assinou-a e dela assim se guarda a memória de Maria Eugénia de Lancastre.




Vida Rural

O Miguel disse-me, olha, tão bonitas. Não resistimos e comprámos. Quedei-me a olhar para esta capa.
Que mundo rural tão apetecível..
Ilustração de utoria de Mestre Figueiredo Sobral.


Fui à Feira da Ladra, pois então...




12 de outubro de 2013

Leminski Assumpção Duncan


Elegância

Paulo Leminski, Itamar Assumpção e Zélia Duncan.
A poesia e a música que os une também nos salva o dia.  

Itamar Assumpção era o que se pode chamar de um negro elegante. Brilhante. Ousado. Altivo e provocante. Deixou a faculdade para ser cantor. O mundo perdeu um contador e ganhou um artista. Itamar viveu pouco, rápido e intensamente. Morreu aos 54, esse bisneto de angolanos, que trouxe a música na alma.

Nas décadas de 70 - 80, do Século passado, liderou um movimento que ficou conhecido como "Vanguarda Paulista", junto com outros artistas que não se submetiam às regras das grandes gravadoras. Criaram um circuito alternativo do qual ele era "pule de dez".

No caminho, cruzou com outro gênio - da poesia - Paulo Leminski. Do cruzamento dos dois surgiram algumas peças memoráveis. Uma delas transcrevo agora e Itamar canta depois.

Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra

Leminski/Assumpção


Não é por ai

Itamar veio muito a Brasília. E aqui conheceu Zélia Duncan. Ele vinha pra ficar uns dias, ficava muitos. Não queria hotel, queria a casa de amigos. Demorava pra ir embora. Aproveitava a estada pra observar o céu do planalto, o horizonte e as linhas da arquitetura de Oscar Niemeyer. Invariavelmente, cantava. E cantou tanto com Zélia que ela passou a ser guardiã do seu precioso relicário musical. 

Dias destes, não faz muito tempo, Zélia gravou um disco só com músicas de Itamar. Ninguém tem mais autoridade que ela pra fazer isso. Em ninguém a música dele se encaixa tão bem quanto na voz dela.  Das tantas coisas lindas que ele fez Não é por ai soa como se nunca tivesse sido de outra pessoa, senão de Zélia.


Ia dizendo

Não é por aí

O caminho mais curto

Acaba logo ali,

Acaba logo ali


Acontece que algum gesto ainda não foi feito

Hei, não vá saindo assim desse jeito


Pra que pressa?

Depois dessa

Outra história,
outra transa,
outra festa


Agora é tarde

Não está mais aqui quem falhou
Agora é tarde
Ia dizendo, 
não é por aí

Itamar Assumpção

11 de outubro de 2013

"Variedades"

 "Arte Musical" (1907)- retirado da página do Museu da Música

Em termos de instrumentos de sopro estamos mesmo aquém das antigas gerações... Mas eles mal sabiam que viria a pegar a arte da "Vuvuzela" !

João César Monteiro- um olhar em retrospectiva


João César Monteiro- fotografia de Patrick Messina (1996)
A magia do cinema, para além de nos transportar para outros tempos e lugares é a de retratar a nossa história, reavivando memórias, valores e momentos que ali ficam eternamente guardados, à espera de ser revistos e novamente interpretados à luz de novas gerações.
É por isso que iniciativas como o Córtex- Festival de Curtas-Metragens de Sintra devem ser apoiadas e acarinhadas, nunca deixando de reconhecer-lhes valor. 
A sessão de abertura deste festival mostrou numa homenagem a João César Monteiro a colecção de curtas do realizador.
Para além de nos levar a um universo muito próprio cheio de dicotomias, contradições, um tom sempre provocador e acutilante temperado de um “non-sense” refinado; as pequenas histórias fragmentadas que nos trouxe revelam um sentido mordaz de captar um retrato de um país e dos seus valores.

Em 1971 , o “provérbio cinematográfico”: «Quem espera por sapatos de defunto, morre descalço» que deu nome a uma das suas curtas desse mesmo ano, queria dizer muitas coisas que ainda hoje são de uma actualidade desarmante.

Nunca antes tinha sido feita uma exibição das curtas do realizador, o que por um lado me espantou; mas o que mais me entristeceu foi saber; por uma das organizadoras desta mostra retrospectiva (Isabel Strindberg) as condições pouco (ou mesmo nada) favoráveis em que o património cinematográfico é arquivado e preservado. São obras históricas, que datam de uma época e que, além de excelentes documentos de investigação fazem parte da cultura de cada um! 

É verdadeiramente lamentável a forma como as instituições responsáveis não se preocupam com a preservação, algo prioritário e urgente (apesar de reconhecer a ginástica financeira a que muitas delas são obrigadas no contexto que vivemos).


Curiosamente neste encontro, tivemos ainda o prazer de ouvir Liliana Navarro, uma italiana fascinada com o universo de João César Monteiro e que fez a sua tese de doutoramento sobre uma das suas obras. Criou ainda uma página onde partilha informação sobre o seu espólio, por dizer que esta estava pouco acessível a todos. 

E no fim, deixou-nos uma pequena reflexão em jeito de brincadeira: “é preciso ser uma estrangeira a vir estudar o vosso património?”. 

Cinco mulheres e seus destinos

Norma Bengell

Esta semana, o Brasil perdeu uma de suas grandes atrizes. Norma Bengell se foi, aos 78 anos de idade, vítima de câncer no pulmão. Norma foi uma das divas da minha adolescência. Uma mulher à frente do seu tempo. Ganhou fama mundial pelo seu trabalho no filme "O pagador de promessas", que em 1962 venceu a Palma de Ouro, em Cannes.

Norma Benguell em cena de "O pagador de Promessas". 
Sua carreira cinematográfica ficou marcada pela ousadia. Foi a primeira mulher a expor-se, em nu frontal, num filme brasileiro - Os cafajestes - numa cena memorável que ocupou a memória afetiva, erótica e inconfessa de milhares de adolescentes como eu, por muitos e muitos anos.

Norma Bengell na primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro. 
A morte de Norma me fez pensar em outras mulheres importantes para a cultura brasileira. Ai, vasculhando a rede mundial de computadores, encontrei uma foto da "Marcha dos cem mil", um movimento organizado pelos estudantes, contra a ditadura, em junho de 1968, que ganhou as ruas do Rio de Janeiro e teve o apoio de artistas e intelectuais.

Uma foto dessa passeata virou história e traz cinco das grandes atrizes brasileiras, que viviam o despontar de suas carreiras naquele momento.

Da esquerda para a direita: Tônia Carreiro, Eva Vilma, Odete Lara,
Norma Benguell e Ruth Escobar, em foto histórica de junho de 1968.
Jovens atrizes, grandes mulheres.
A foto carrega hoje mais do que o seu registro temporal e revolucionário. Sinto vontade de saber o que aconteceu ou acontece hoje a cada uma delas. Não é difícil.

Uma rápida pesquisa na internet me permite - a partir do fato da morte de Norma - buscar o paradeiro das suas companheiras de caminhada naquele dia histórico e, depois, por toda uma vida.

Tônia Carreiro
Tônia Carreiro, por muito tempo dividiu com Fernanda Montenegro o título de grande dama do teatro Brasileiro. Tônia envelheceu com dignidade, mas preferiu a reclusão. Vive quase anônima, amparada pelo filho e por sobrinhos, no Rio de Janeiro.

Eva Vilma
Eva Vilma é a mais atuante de todas. Brilhou nos palcos e no cinema, mas foi na TV Globo que consolidou seu papel de grande atriz, com interpretações marcantes em novelas que entraram para a história da tele-dramaturgia nacional. No início da carreira fez par romântico nas telas e na vida real com John Herbert. Mais tarde, casou-se com outro galã da televisão brasileira, Carlos Zara.  O tempo passou e ela, ao que parece, lida muito bem com ele. 

Odete Lara
Odete Lara, preferiu a reclusão bem cedo. Fez mais de 30 filmes, ficou conhecida como a musa do movimento chamado "Cinema Novo", que teve em Glauber Rocha seu maior ícone. Odete tornou-se budista. Mudou-se para os Estados Unidos onde viveu por 17 anos em absoluto anonimato. Hoje, aos 84 anos, vive no Rio de Janeiro e, de vez em quando, se surpreende com a sua beleza, exibida nos canais de televisão que se especializaram em filmes antigos brasileiros. 

Norma Benguell, como se disse lá em cima, morreu esta semana. Muitos amigos dizem que o que a matou não foi o câncer, foi a depressão e o isolamento. Norma, no fim da vida, não conseguiu livrar-se das acusações de ter desviado dinheiro daquela que seria a sua grande obra, a filmagem de "O Guarani"

Ruth Escobar
Por fim, a quinta atriz da foto original, Ruth Escobar, é vitima do mal de Alzheimer. Vive em extrema dificuldade financeira. Seus bens, inclusive um teatro que leva o seu nome, são parte de um litígio familiar que não tem data para desenrolar-se. 

Seu olhar no vazio, nem de longe lembra a ativista que tanto fez pela cultura brasileira.   Não faz muito tempo, sua filha publicou um apelo dramático na internet. Um pedido de ajuda para que ela possa ter tratamento digno, assistência médica e cuidados de saúde. 

Cinco mulheres. Cinco damas da cultura brasileira. Cinco destinos distintos. A beleza da juventude passou com o tempo. A dignidade da contribuição delas à cultura brasileira, isso, nem o tempo pode apagar. 



       

Arte e Luz

Pedacinhos do dia a dia

Se eu soubesse desenhar, gostava de saber desenhar assim. Pedacinhos de realidade que nos são devolvidos pelo Alexandre Esgaio. Para quem tem facebook é procurá-lo e para quem vai a blogues,pode vir aqui.
Deixo um desenho da autoria do Alexandre Esgaio, para aguçar o apetite.

9 de outubro de 2013

Adivinhais?


Os morangos de Ingmar Bergman



«O que é ser realizador?» – perguntaram a Bergman em entrevista, corria o ano de1964: «Oito horas diárias de trabalho árduo, para conseguirmos 3 minutos de filme». Mas fazer um filme é também a escrita de guiões elaborados pelo realizador, na remota ilha de Farö, na Suécia. Ao longo de décadas, a mesma rotina : depertar às 8h, escrita das 9h ao meio-dia , seguindo-se a parca refeição. «O almoço era sempre o mesmo» - lembra a diva Bibi Andresson- «uma espécie de leite azedo e compota de morango: singular mistura, a lembrar comida para bebé, à qual adicionava Corn Flakes». Após a refeição, Bergman trabalhava das 13h às 15h, para depois fazer a habitual sesta de uma hora. No final da tarde,  a caminhada ou, em alternativa,  o ferry para uma ilha vizinha, a fim de comprar jornais e recolher a correspondência. Ao serão lia, encontrava-se com amigos, assistia a uma longa metragem ou a uma série televisiva (era fã de Dallas). «Nunca consumi álcool ou drogas» - afirmou- «ocasionalmente, bebo um copo de vinho, o que me deixa incrivelmente feliz.»

Excerto de Daily Rituals, de Mason Currey

(fonte: The Guardian, 5/10/13, tradução informal para este blogue)

8 de outubro de 2013

Chiaroscuro




Lá fora, a escuridão. Chuvarada, relâmpagos e trovões. Um raio atinge um transformador. Um bairro inteiro sem luz. Por uns instantes, voltamos à idade das trevas. Sem luz, sem TV, sem internet, sem telefone. Só a escuridão e o pensamento.

Nessas horas, a companhia do silêncio é ensurdecedora. No escuro, pensa-se mais. No escuro, reflete-se mais. O escuro,  por contraditório, é revelador. Aproveito a escuridão para ver um filme mental do meu dia. E durmo com a certeza de que tudo está mais claro que nunca.

à memória de phil chevron



philip chevron foi um dos mais criativos músicos irlandeses e um dos seus maiores conhecedores.
subvalorizado até há muito pouco tempo, mas ainda a tempo de poder participar num enorme concerto em sua homenagem por quase todos os grandes nomes da música irlandesa.
com os radiators, os pogues, com amigos de circunstância, ou na sua loja de música, philip chevron foi um exemplo de discrição (até pelo contraste de alguém que andou pelo punk e depois o fundiu com a música tradicional irlandesa).
esta noite, depois de uma prolongada doença, philip chevron morreu.
ficamos com a sua memória.
e a sua música.

phil chevron & spider tracy

Mentes criativas, rituais diários


Rotinas quotidianas de grandes vultos da Literatura: café de Balzac, madrugadas de Hemingway.

Um recente artigo do The Guardian revela rituais de personagens da História e da Literatura. Nele podemos conhecer algumas «estórias da História», tais como as seguintes:
- Hemingway levantava-se, todos os dias, às 5.30 da madrugada mesmo, quando na véspera, o consumo de álcool tinha ultrapassado os limites da sobriedade;
- Marcel Proust despertava entre as 3h e as 6h da manhã, começando o dia com uma dose de ópio para aliviar a asma, seguindo-se um croissant e uma chávena de café (que também é broncodilatador e, como tal, minimiza dificuldades respiratórias);
- Beethoven também consumia o café matinal, só que excessivamente forte : ele próprio contava 60 grãos para moagem, sendo essa a quantidade a seu gosto;
- Balzac ingeria 50 cafés diários;
- Flaubert mergulhava em banhos de imersão a elevada temperatura.

Informação detalhada em Rituais diários, mentes criativas The Guardian, 5 de outubro de 2013

Fonte: Gallimard, tradução livre para este blogue