
(imagem: tomaradianteira.blogspot)
Inesperadamente sou alertada por uma amiga para
este interessante post. Atendendo à pertinência das questões colocadas, a atenção pessoal é mobilizada pelo texto apelativo.
Em sintonia com o poeta quando afirma «a minha pátria é a Língua Portuguesa», recordo amigos que, emocionados, ensinaram o nosso idioma e a nossa cultura em diversos recantos do planeta. Os comentários que deixavam eram coincidentes : «nem imaginam a sensação de ouvirmos, em paragens distantes, pessoas de diversas idades a declamarem versos dos nossos poetas, a conhecerem em profundidade a nossa cultura, a dialogarem em Português».
Os variados relatos diziam respeito a estudantes do ensino secundário (sim, sem descenderem de emigrantes escolheram o Português como opção, a alguns destes jovens, conheci-os e acolhi-os em minha casa) ou do superior, nem sempre directamente ligados a Portugal por factores históricos.
Quando se estima e tenta cuidar das palavras – utilizadas com transparência e não como retórica oca são do mais belo que existe (as desculpas pela subjectividade da afirmação) - o seu valor torna-se inestimável. Por isso mesmo, causa certa apreensão o simplismo de algumas teorias (?) tentando encontrar nomes e rostos envolvidos (não confundir com o conceito de «a culpa morrer solteira») sempre que esbarram em quem – por visibilidade pública – deveria ter maiores responsabilidades na correcção linguística : políticos, locutores, juristas, jornalistas, docentes…
A tese do capital cultural tal como a defende Pierre Bourdieu que, de forma simplista, se poderá resumir ao determinismo “colado” a cidadãos oriundos de meios desfavorecidos a ponto de travar a sua progressão escolar e social custa, pessoalmente, a aceitar (embora o autor seja apelativo e pertinente em muitos dos escritos ). Por isso mesmo e colocando na arena os que, acerca dos maus tratos ao idioma, criticam pais e defendem professores a par de outros que culpam estritamente o ensino, tudo leva a crer tratar-se de uma questão cuja complexidade – não parecendo cingir-se a matéria a um primário “tomar o partido de” - mereceria uma reflexão amadurecida, indissociável de honesta contextualização a servir-lhe de suporte com vista à implementação, a curto prazo, de práticas eficazes.
Sabendo tratar-se de um dos poemas mais utilizados nos últimos tempos – também por destacar a importância da comunicação verbal – fica a sua transcrição por consistir numa alternativa (literária, é certo) a salientar a importância de clarificar conceitos através de algo tão importante como palavras (quando devidamente utilizadas, o que nunca é demais repetir):
São como cristal, as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade